quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

O Reflexo da Morte (ou da Vida) nas Janelas do Rio

Atraco o meu corpo ao entardecer do Tejo. O meu interior (a alma, o espírito, o âmago, o que desejarem ou sentirem estar dentro de vós e possa ser de algum modo idêntico ao que tenho e sinto) esboça um sorriso iluminado de laranja. O sol aquece os pulmões quando o inspiro lento, e mais lento ainda o expiro, porque é impossível retê-lo dentro de mim sem morrer. Morrer. Para não morrer (ou para não viver) venho aqui olhar o horizonte, visitar a fronteira entre Lisboa e o Tejo, o limiar entre a vida e a morte:
Bastaria um passo em falso para o agitado rio hiemal me envolver suave na substância fluida como sangue negro das algas e poluição dissolvidas em água. Na doçura de um abraço de um ser do obscuro, num beijo de morte, a alma sugada por um vampiro “psicófago”1.
Viro-me para as encostas das colinas e vejo os últimos raios de sol a se reflectirem nas janelas. Olhos Observadores. Até hoje ainda não interpretei a razão das casas das colinas estarem viradas ao rio. Serão varandas de contemplação? Ou serão paisagem construída para as vistas do Tejo ao acordar de manhã?
É certo uma viagem de barco nos levar a sentir que Lisboa está construída para ser olhada do rio. Nota de boas vindas para os barcos chegados de longe, hoje a trazer mercadoria importada para a capital, mas outrora navios de aventura e riqueza de paragens longínquas da coroa?
Ao mesmo tempo por detrás daquelas janelas as mais variadas pessoas inebriam perante o anoitecer do rio, achando-se cada uma detentora de um privilégio sublime, esquecendo os séculos de contemplação que aquela arquitectura já permitiu, e esquecendo do mesmo modo todos os vizinhos de colina com a mesma vista e os mesmos pensamentos.
Inspiro a paisagem dentro para assim saciar a sede, (ou a fome, não consigo distinguir) não sei se vinda do interior, se do corpo, não a sabendo saciar. Inspiro qual a última vez que respirasse, e expiro para evitar a morte. Por muito que deseje deixar de viver, não é morrer que quero.
Tantas vezes tenho já vindo visitar o Tejo e encontro no Estio pescadores. Imagino sempre quais os peixes que mordem o isco. Nestas águas salobras e poluídas, mas espelho e reflexo de Lisboa, quais serão os peixes apanhados? Ou quais serão os peixes que se agarram ao fio para virem até à superfície, sabendo suicidar-se, mas mesmo assim achando valer a pena trocar Lisboa pelo Tejo e morar, nem que seja por alguns segundos, na cidade?
Também eu escolheria a minha casa no Tejo, por alguns segundos apenas, se me inclinasse na direcção das águas do rio.
Porque razão escolherão estes peixes Lisboa? Por razão nenhuma, os peixes não pensam, não escolhem. Por muito que os possa imaginar pensantes, seria demais imaginá-los tanto assim.

Porque razão escolheria eu o Tejo a Lisboa, sabendo ser a minha morte? Valeriam tanto assim esses segundos de troca? Porque quaisquer pretensões de me tornar num ser ribeirinho não passariam de criação. Seriam segundos entre a vida e a morte, um momento de aflição: abriria os olhos na água turva e a respiraria, tentando sentir a vida no momento antes da morte.
Inspiro. A humidade da noite a aproximar-se arrefece-me. Expiro logo a seguir, dado o frio me assustar. Não desejo afogar-me fora de água.
Uma gaivota vem surpresa, por entre as brumas da escuridão quase noite, opressora das vistas do Tejo, rio quase mar, e pára, mesmo à minha frente, flutuante, perante o vento que começou agora a soprar.
Ali fica ela no limiar entre a terra e o mar, presa pelo ar invisível. Indecisa, tal como eu, a escolher o seu destino, fica aí durante breves momentos, enquanto noto o entardecer a terminar, e tomo coragem para decidir o caminho a tomar. De seguida, farta de estar suspensa, aceita a ajuda do vento e volta para desaparecer na escuridão.
Entretanto as luzes da cidade já terão surgido, mas neste local de contemplação, abrigo por entre as obras, a luz não chega. Falta o fogo para me iluminar a mente. O vento quer ajudar-me a decidir, mas não sei se será justo seguir os conselhos de alguém. Se a gaivota ali não permaneceu eu também não deverei.
Inspiro. Sustenho. Expiro. Venho aqui para não morrer. Sufoca-me estar muito tempo sem ver o horizonte.
Poderia escolher uma qualquer esplanada ou um qualquer miradouro nas colinas, e espreitá-lo. Contudo, ficaria a sensação de estar às costas da cidade por ver as traseiras das casas que descem a colina. Não quero olhar por cima do ombro de Lisboa. Quero ver, possuindo os seus olhos.
Então para mim estar na margem é observar o horizonte ao nível do horizonte. Olhá-lo de frente, ficar apenas com o rio e deixar Lisboa para trás.
Venho aqui para não morrer, pois não ver o infinito sufoca-me e fico à beira de um enforcamento.
Inspiro o rio que me faz viver. Suspendo: quase morro. Languescente expiro o rio que me mata.
Venho aqui para não viver.
Esta proximidade do Tejo em vez de curar, piora-me a doença, fazendo nascer em mim o desejo de experimentar, por meros segundos, a transformação num ser meio estranho, ribeirinho: nadar voando nas águas turvas; deixar-me levar a definhar pela corrente e viajar até ao mar.
Ali tão perto, o rio, quase a tocar-lhe. Mas não quero morrer, assim como não desejo sequer viver. O ideal seria uma espécie de suspensão, entre a vida e a morte, algo semelhante a um vôo.
Suster a respiração é o mais parecido que consigo.
A noite caiu. Mais uma vez fui incapaz de decidir. Abandono a margem, marco passo pela calçada de Lisboa: imagino o que seria do meu corpo envolto na água, com a mesma fluidez do útero de minha mãe. Desta vez seria frio. Frio. Voltaria à posição fetal, não por conforto, mas para me tentar proteger da agressividade da corrente. E assim, com a respiração suspensa, a morte invadir-me-ia para sempre. O rio fica para trás, na companhia da morte desejada. Regresso ao meu ninho. Um dia terei de decidir, não posso viver assim.
Desperto aos primeiros raios de sol a entrarem pelos vidros. Como numa cotovia, o sono acalmou o meu interior, mesmo não tendo eu bebido um qualquer elixir dos deuses para afastar os maus sentimentos dos meus pensamentos. Caminho até à janela. Primeiro que calçar as pantufas, lavar os dentes ou tomar café. Antes mesmo de esfregar os olhos para acordar melhor. Afasto as cortinas, de fino tule branco, o mais transparente possível, a deixar entrar a luz dando-lhe uma leve atenuação mágica.
O meu leite matinal, o meu néctar divino que me faz viver é olhar todos os dias mal acorde pela janela e ver o Tejo infindo.
A angústia percorreu-me durante muito tempo. Desejava a sustensão da vida sem morrer. Acabei por perceber que viver naquela constante angústia já a tinha suspendido, e a destruído sem me aperceber.
Tinha de algum modo morrido para os vivos. Nada mais interessava a não ser matar a aflição de não ver o horizonte, tentar sobreviver e resistir à tentação de me atirar às águas do Tejo. Não vivia para ninguém. Nem para a família, nem para os amigos. Muito menos para o amor.
No entanto para os mortos eu vivia porque continuava a caminhar sobre a terra, a estar dependente da respiração e do sono reparador da doce noite escura.
Quando percebi ter a suspensão ansiada deixei de a querer ter. Como qualquer criança que recebe o brinquedo desejado no aniversário e depois se entedia. Tive de escolher entre a vida e a morte, tal modo a suspensão era insuportável.
Escolhi a vida.
Aluguei um apartamento numa das casas das colinas de modo a ter o rio a um desviar da cortina, sem deixar a minha cidade. Mesmo tendo optado pela vida reconheço não ser possível o abandono total dos antigos hábitos. Este era o modo melhor de poder ver o horizonte todos os dias sem abandonar nem Lisboa nem o Tejo.
No início da semana tenho sempre o meu interior reparado. Mas conforme avança, a fadiga entra dentro de mim aos poucos. Tenho a sorte de não trabalhar ao sábado. Posso assim acordar aos primeiros raios de sol. Deixo as persianas levantadas para a luz poder entrar livre, despertando assim.
Pego na cana de pesca e desço até ao rio. Há lá mais pescadores. Não sei se pelas mesmas razões minhas, se por terem um verdadeiro gozo na pesca. Não estar só a pescar até se torna mais suportável, e menos suspeito.
Os peixes não pensam, e muito menos escolhem. Mas mesmo assim quero acreditar que aqueles que pesco se agarraram livremente ao anzol (sem isco) para experimentarem durante segundos o desejo de estarem na cidade, viverem a suspensão da vida (ou da morte) enquanto respiram sem pulmões e sentem o ar nas escamas.
Pesco sábado e domingo de manhã. Se houver um feriado também vou até ao Tejo. Um ou dois peixes bastam-me. Mais tarde almoço-os crus, sem o fogo do lume lhes ter destruido a vontade. Porque é dessa vontade, adquirida ao comê-los, que vivo. O sumo da sobrevivência de todos os meus dias.

Olinda Gil
3º Prémio de Prosa – Lisboa à Letra -2004

1 À semelhança de “antropófago”, o que come carne humana, “psicófago” poderia ser o que come almas (de yncή).

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