terça-feira, 15 de Abril de 2014

Leitores: Gabi (Dona Redonda)






Para a nossa rubrica do blog, leitores, convidámos a blogger, leitora Gabi para responder às nossas perguntas. A Gabi mostra as suas leituras no blog Dona-Redonda.



Que sentimentos procuras que um livro te deixe?
Gosto de ler e descobrir livros diferentes e assim também procuro sentimentos diferentes: empatia com os personagens, sentir que vivi em parte o que li. 

A leitura, para ti, é uma companhia, um escape, uma busca pelo mundo sem sair de casa ou tudo isto? 
Tudo isto sem dúvida e mais ainda. É também uma forma de aprender, matéria para sonhos, uma ligação com quem já leu ou está a ler um mesmo livro, a ocupação para um tempo de espera.

Quando fores velhinho/a e já não vires bem as letras o que vais fazer à tua vida de leitor/a?
Arranjar melhores lentes, recorrer a livros-audio - se também ouvir mal poderá ser um problema...


sexta-feira, 11 de Abril de 2014

O Circo Invisível


Porque gostei muito do "Brutamontes"
e porque já ouvi dizer muito bem deste.

terça-feira, 8 de Abril de 2014

Podia ser só o amor

Ilustração de Cláudia Banza

Podia ser só o amor, ou podia não ser. Poderia ser só um sonho. Poderia ser apenas um homem e uma mulher que se amassem, mas havia algo de impossível nisto tudo, tendo em conta que o cabelo dela parecia flutuar.
Não era um pormenor de somenos, pois os cabelos não flutuam. Era sem dúvida a prova da sua loucura. Mais uma. Como os cavalos alados que se encontravam a pastar junto ao parque das crianças. Sabia que aquela mulher de cabelo flutuante não existia, que era fruto da sua mente louca. Mas no fundo não queria saber disso para nada. Essa informação só servia para que soubesse que não poderia falar daquela mulher a ninguém. Assim como não podia falar dos cavalos alados ou dos pássaros mordedores. (Também havia uns pássaros mordedores). Ou então ainda poderia ir parar ao hospício.
E no hospício sabia que aquela mulher de cabelo flutuante nunca iria aparecer.
Interessava-lhe apenas quando a encontrava. Os seus lábios delicados que deixava beijar. Do seu olhar meigo, do seu corpo tenro. Poucas palavras trocavam, mas sabia que se amavam. E havia muitas carícias, e muito sexo. Em todos os lugares. Já tinha sido em sua casa, mas também no cinema, no comboio, no elevador...
Que interessava agora que estivesse louco e que a mulher de cabelos flutuantes fizesse parte da sua demência? O que interessava mesmo era que se amavam.

segunda-feira, 7 de Abril de 2014

No Lar

Tinha entrado no lar de 3ª idade naquele dia. Antes não queria, há uns tempos atrás. Quando ainda não precisava de ajuda para se levantar de uma cadeira. E outras coisas mais, que não valia a pena estar para a ali a enumerar maleitas. Agora conformou-se com a ida para o lar. Afinal a sua vida era do quarto da cama para a sala, levada por alguém que lhe escolhia o canal de televisão. A casa era pequena, e, em comparação com o espaço amplo do lar apercebeu-se que, afinal, tinha estado presa na sua própria casa. Havia quantas semanas que não via a rua? Tinha sido num dia chuvoso, em que a levaram ao médico. Há quanto tempo que não podia apanhar uma laranja de uma árvore e saboreá-la deixando escorrer o sumo dos lábios?
Naquela noite, depois do jantar, levaram-na para a varanda. Puseram-lhe uma manta sobre o corpo e pode apreciar os cheiros do jardim. Lá dentro, colegas seus (afinal conhecia-os a todos) cantavam cantigas dos seus tempos de juventude. Depois voltaram a trazê-la para dentro. Ia ver televisão, era hora das notícias, trar-lhe-iam chá e bolachas. Sentia-se a fazer serão. Há quantos meses se deitava às seis da tarde? Durante quantos meses ficara a dormir até às 11h00 porque ninguém se atrevia a acordá-la, a incomodá-la. Sabia que às vezes se portava como uma criança, e que ia ter regras ali. Mas acabou por almoçar e jantar bem, ao contrário do que costumava fazer. Afinal, o lar não era tão mau quanto pensava.

domingo, 6 de Abril de 2014

O cinema imaginado

Ilustração de Camie C. M. Elias

Gosto de imaginar o cinema onde não iria sozinho. Diferente daquele onde costumo ir, um prédio alto, de traçado antigo, onde filmes negros só passam depois do sol se pôr, depois da cidade começar a ficar vazia de pessoas com vida, dando lugar aos solitários, como eu.
Gosto de imaginar um cinema onde gostaria de te levar, memória dos meus sonhos. Um cinema em campo aberto, onde poderíamos ver muitas comédias em tardes frescas de primavera, onde te poderia passar o braço pelos ombros e beijar as tuas madeixas.
Vi-te um destes dias. Passaste a passadeira à pressa, olhando sempre para trás, assustada. Não me viste e passei mais uma noite sozinho.

sábado, 5 de Abril de 2014

Agrilhoada

Ilustração de Ana C. Nunes

À noite, quando se deitava no escuro do seu quarto, sabia-se agrilhoada, apesar de não ter amarras visíveis. Apesar de não ter correntes nos pés, era assim que se sentia. Não tinha marido, não tinha pai, mas sentia que era  o poder masculino que a agrilhoava, exercido por homens e, inclusive, por outras mulheres. Cada sapato de salto alto era uma chicotada. Cada passagem de rímel pelos olhos era outra. Cada copo de wiskey que bebia, na sua casa, à noite. A face erguida, mesmo nos dias maus, o cansaço que sentia à noite.
Sentia-se louca por tudo isto, pelo preço que estava a pagar, nem sabia pelo quê.
A sua vontade era de correr sobre campos verdejantes, nua como uma selvagem, Mas não sabia o caminho para aquele local.

sexta-feira, 4 de Abril de 2014

A recriação do mundo

Fotografia de Clarinda Cortes

Cada pinceladela era uma brincadeira, um sonho. Cada figura que desenhava era uma boneca, um cavalo, um unicórnio. Bastava um pincel com um pouco de tinta para que brincasse como se tivesse um milhar de bonecas. Até podia ser um pincel e água, desenhar figuras com que brincava e a se desvaneciam em segundos. Podia ser só um pausinho e a areia da praia. Podiam ser só os seus dedinhos no escuro, à noite, quando deitada na cama. A sua imaginação não parava nunca, e sempre que desenhava recriava um mundo com que brincava. E para ser a criança mais feliz bastava-lhe um pincel e um pouco de tinta.

quinta-feira, 3 de Abril de 2014

O vôo do Moscardo

Fotografia de Carina Portugal

A aranha subia um móvel de uma casa pronta a fazer a sua teia e tudo aquilo que se pede de uma aranha. Não sabia, por aranha ser, que aquele móvel daquela casa albergava um aparelho de ouvir música, e que aquela música que um humano tinha ordenado tocar era parte de uma ópera de Nikolai Rimsky-Korsakov. Sorte a da aranha, não por não saber nada disto, mas pelo humano não a ter visto, pois nesse momento a sua vida teria perecido e não teriam tido lugar as sensações que a música lhe haveria ditado.
Enquanto a música tocava ela já não era uma aranha. Também não era bem uma mosca. Era uma pessoa, a quem lhe cresceram asas. Deixou de se alimentar como as pessoas e a cada momento diminuía de tamanho. Quanto mais pequena mais rápida ficava, até que a sua família se fartou de tudo aquilo e a fechou numa arrecadação. Mas ainda pensava como uma pessoa.
A música terminou. A aranha continuou a subir o móvel, até que o humano a visse. Nunca saberia que um dia escreveram uma história muito parecida com aquela.

quarta-feira, 2 de Abril de 2014

Reedição portuguesa de Momo



A reedição deste livro, para mim é um caso de justiça.

Saibam mais aqui.

Historiografia dos meus blogs - A blogar há cerca de 11 anos

Muitas vezes observo comemorações de aniversários em blogs, e fico cá comigo a coçar o queixo e a pensar: "Eu andei sempre a saltar de blog em blog, não posso fazer grandes aniversários. Mas, afinal, deste quando é que blogo?"

Existe uma plataforma, a Internet Archive, que nos permite ir atrás do rasto dos nossos antigos blogs, desde que nos lembremos do seu endereço. Não nos lembrarmos é sem dúvida, um grande problema, mas com jeitinho, e se nos lembrarmos de quais os blogs que seguimos há anos, talvez consigamos encontrar o rasto de algum blog esquecido.

Foi assim que descobri o meu 2º blog! Sim, 2º, porque do 1ºnão me recordo do nome e não lhe consigo encontrar rasto. Confesso que deste 2º não me recordava dele...


Como podem ver pela imagem (e se quiserem aqui) antes de Novembro de 2003 já eu blogava. Lembro-me que esse blog, o primeiro, estava alojado numa plataforma brasileira. É a única coisa de que me lembro.

Deste blog podem encontrar rasto aqui. As entradas mais antigas são de 21 de Novembro de 2003. A única data com que posso contar.

Curiosamente encontro isto:


Deixo abaixo outros links do Internet Archive para blogs meus. Há muitos textos repetidos, que são os textos do livro "Contos Breves", porque eram os meus preferidos e apagava os outros, não lhes deixando rasto...
  • na-cama.com/olinda/ - blog colectivo em que participei, considerado um dos projectos fundadores da blogosfera em Portugal (apesar de eu não ter participado na fase "fundadora").
  • Letras de Prata
  • Insomnia. Entretanto este endereço está a ser utilizado por outra pessoa e os "catches" mais recentes não são meus.
  • A Casa do Alfaiate - Que no fundo é o actual, pois se clicarem no endereço serão direccionados para o meu blog actual: www.olindapgil.com


Peggy Lee & Bing Crosby - Slow boat to China

terça-feira, 1 de Abril de 2014

O Jardim / Micro no site InComunidade

Este mês tem sido um mês complicado para as navegações internauticas (agora a recuperar aos poucos), e, por isso mesmo, não vos tinha ainda deixado a minha mais recente colaboração no site InComunidade: O Jardim.

segunda-feira, 31 de Março de 2014

Descobrir o Desconhecido

Ilustração de Rui Alex

O demónio vivia numa floresta densa e escura que, para ele, era o mundo, pois não conhecia mais nada. Não sabia o som de uma cascata, não sabia o calor do sol sobre a pele, não sabia a luz da lua, a brisa nocturna, os pirilampos veraneios. Não sabia o que era uma flor, ou um pássaro. Não sabia o que era uma mulher.
O demónio levou anos em curiosidade sobre o que haveria para além da floresta. Ao contrário dos outros demónios, a densidade e a escuridão da floresta não lhe chegava.
No dia em que decidiu ultrapassar a orla da floresta viu algo que nunca poderia imaginar. Tinha pernas, braços e cabeça semelhante à dele. Mas em vez dos seus chifres tinha uma cascata de cabelos negros que descia, sedosa, até ao rabo. Em vez da carne musculada e vermelha tinha uma pele dourada e membros roliços. No peito havia duas elevações piramidais das quais não conseguia tirar os olhos. Aquele ser tinha uma expressão assustada e violenta ao mesmo tempo, mas os seus olhos e os seus lábios era algo que lhe apetecia lamber como ao mais doce fruto da floresta. Empenhava uma arma, e parecia decidida a matá-lo, mas não sabia que, antes sequer de atirar a lança, o demónio, rápido, a podia destruir. Ele sentia o pénis inchado e duro. Nunca o tinha sentido, nem sabia o que era aquilo, mas sabia que era bom. Não a poderia deixar atirar a lança, não se queria defender dela e destruí-la. Pegou na primeira coisa que viu para lhe oferecer. Era uma folha. Sabia que aquilo não tinha encanto nenhum. Mas era a sua tentativa de lhe dizer que, por ela, se tinha tornado pacífico.

domingo, 30 de Março de 2014

Nostalgia dos Dias Felizes

Fotografia enviada por Tiago Videira

Olhas para trás, para a infância, é quase como olhar uma utopia. Só que em vez de ser uma utopia imaginada no futuro ou em algum território longínquo e desconhecido, era a realidade passada. A infância tinha esse poder de parecer uma coisa imaginada e impossível quando era uma infância feliz, como tinha sido a sua.
Agora era um adulto feliz, talvez fruto dessa infância. Mas havia sentimentos que eram impossíveis de recuperar. Como a felicidade de, simplesmente, tirar uma fotografia ou comer um rebuçado como se fosse único no mundo. Ou a sensação da sua mão sapuda a sentir-se segura agarrada pela mão áspera da avó. A avó, velha, que também tinha rugas na face que sentia quando as beijava e falta de dentes que a faziam comer de um modo estranho e barulhento. Mas a sua avó não era nada disso para si, não era velha, não tinha uma voz estranha e arrastada pelos falares da serra. Para si a avó tinha sido só a avó. E ele apenas um menino, feliz.